“Esse que tanto vos humilha tem só dois olhos e duas mãos, tem um só corpo e nada possui que o mais ínfimo entre os ínfimos habitantes das vossas cidades não possua também; uma só coisa ele tem mais do que vós e é o poder de vos destruir, poder que vós lhe concedestes.” – Etienne de La Boétie.
O trecho acima foi retirado do Discurso sobre a servidão voluntária, escrito no ano de 1571. Mesmo passados cinco séculos, essa afirmação ainda se aplica no contexto atual.
A sociedade está imbuída do consenso de que é livre por ter conquistado o direito à expressão. No entanto, ela não tem a consciência de que liberdade é algo muito mais amplo e que, na realidade, abdicou dela há muito tempo em nome de bens maiores: a garantia da vida e da ordem.
De acordo com a ideologia hobbesiana, o homem é belicoso e busca honra e glória, não medindo esforços para obtê-los. Logo, “o homem é lobo do homem”. Para que a vida, o direito natural do homem, fosse garantida, um contrato social foi firmado, transferindo esses direitos à Soberania exercida.
Surge, portanto, uma servidão voluntária. O homem aceita submeter sua liberdade a um soberano contanto que sua vida seja garantida. Entretanto, o governante passa a ter um poder ilimitado não só sobre a vida como também sobre a morte.
Opondo-se a Hobbes, Locke escreve que os homens não podem renunciar a seus direitos naturais: o direito à vida, à liberdade e aos bens. Os únicos direitos de que o homem pode abdicar são o de defesa e o de fazer justiça, ambos a favor do Estado que então passa a garantir a paz ao assegurar a vida, a liberdade e os bens.
Para completar a “tríade” de contratualistas, deve-se considerar o contrato social segundo Rousseau. Esse, por sua vez, fixou a propriedade e a desigualdade, pondo fim à liberdade natural. Ele é usado em proveito de uma elite ambiciosa que transforma a usurpação em direito.
Apesar de ser um vício irracional, a servidão voluntária é algo inerente à existência da sociedade. Não sabemos viver sem nos submeter a uma força maior que nos controle. “O homem nasce livre, mas por toda parte encontra-se aprisionado”.