quinta-feira, 26 de maio de 2011

Servidão voluntária: um vício

“Esse que tanto vos humilha tem só dois olhos e duas mãos, tem um só corpo e nada possui que o mais ínfimo entre os ínfimos habitantes das vossas cidades não possua também; uma só coisa ele tem mais do que vós e é o poder de vos destruir, poder que vós lhe concedestes.” – Etienne de La Boétie.

O trecho acima foi retirado do Discurso sobre a servidão voluntária, escrito no ano de 1571. Mesmo passados cinco séculos, essa afirmação ainda se aplica no contexto atual.

A sociedade está imbuída do consenso de que é livre por ter conquistado o direito à expressão. No entanto, ela não tem a consciência de que liberdade é algo muito mais amplo e que, na realidade, abdicou dela há muito tempo em nome de bens maiores: a garantia da vida e da ordem.

De acordo com a ideologia hobbesiana, o homem é belicoso e busca honra e glória, não medindo esforços para obtê-los. Logo, “o homem é lobo do homem”. Para que a vida, o direito natural do homem, fosse garantida, um contrato social foi firmado, transferindo esses direitos à Soberania exercida.

Surge, portanto, uma servidão voluntária. O homem aceita submeter sua liberdade a um soberano contanto que sua vida seja garantida. Entretanto, o governante passa a ter um poder ilimitado não só sobre a vida como também sobre a morte.

Opondo-se a Hobbes, Locke escreve que os homens não podem renunciar a seus direitos naturais: o direito à vida, à liberdade e aos bens. Os únicos direitos de que o homem pode abdicar são o de defesa e o de fazer justiça, ambos a favor do Estado que então passa a garantir a paz ao assegurar a vida, a liberdade e os bens.

Para completar a “tríade” de contratualistas, deve-se considerar o contrato social segundo Rousseau. Esse, por sua vez, fixou a propriedade e a desigualdade, pondo fim à liberdade natural. Ele é usado em proveito de uma elite ambiciosa que transforma a usurpação em direito.

Apesar de ser um vício irracional, a servidão voluntária é algo inerente à existência da sociedade. Não sabemos viver sem nos submeter a uma força maior que nos controle. “O homem nasce livre, mas por toda parte encontra-se aprisionado”.

3 comentários:

  1. A citação no inicio do texto foi muito bem colocada pelo grupo,penso que também cabe discutir alguns princípios apresentados por Rosseau como o fato de que as pessoas servem por habito,e a forma de se acabar com essa chamada "servidão voluntária" é através da educação que faz com que os indivíduos percebam que se submetem por tradição.É esse o motivo de Rousseau focar grande parte de sua argumentação na questão educacional e por achar que serviria também como um meio de viabilizar uma situação igualitária na sociedade.
    Finalizando com uma frase do próprio Rousseau:"O homem é livre,mas por toda parte encontra-se aprisionado"

    Por Marina Calife Dauar. RA:00096963

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  2. Achei muito prudente a exposição da análise desses três contratualistas sobre a formação da sociedade para discutir a exploração. Mas acho importante ressaltar que entre os três, o que permite mais diretamente a exploração voluntária desenvolvida por La Boétie, é Locke. Apesar de Hobbes manter aberta a possibilidade de um soberano que mantenha a propriedade e direito a bens, enfim, um soberano liberal (porque o 'como governar' depende exclusivamente da vontade dele); foi Locke quem colocou o direito à propriedade algo natural ao homem e, apesar de em um primeiro momento 'tábulas rasas', essa situação de 'igualdade inicial' some quando uns passam a nascer filhos de pais latifundiários e outros de operários de fábrica. Quer dizer, a exploração hobbesiana é de um homem (a quem legitimou-se)sobre toda a sociedade, enquanto a de Locke é de um grupo de homens sobre outro - sem que aja qualquer controle do Estado sobre isso.

    Sem dúvida a saída é pela educação. Não só Rousseau falou isso, como muitos outros após ele - incluindo Hegel, Marx, a Escola de Frankfurt. Quer dizer, o tempo passa, o capitalismo aprimora suas formas de dominação (do corpo e da mente), ainda mais agora com as mídias de massa), a servidão continua de maneira mais disfarçada e intrínseca (e portanto menos combatível)e, ainda assim, a solução continua a mesma.

    Marília Pinheiro

    PS: desculpem a postagem excluída, é que eu cometi um erro imperdoável de concordância e não ia dormir bem se não concertasse, haha.

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